Está em
andamento o caminho sinodal da Igreja Católica.
Em todo o mundo
há uma reflexão de todo o povo de Deus sobre a identidade e missão da
comunidade eclesial hoje. Em muitos países, incluindo Portugal, o primeiro ano
do percurso levou a um enfoque particular sobre as modalidades de presença e de
ação dos crentes na sociedade. Nesse esforço, a pesquisa teológica é chamada a
dar sua própria contribuição.
Debatemos este
tema com Fernando Ilídio.
Fernando Ilídio com já alguns textos publicados e algumas entrevistas é dos mais promissores teólogos católicos. Com 43 anos, casado e com uma filha, é formado em Teologia pelo Centro de Cultura Católica do Porto, onde concluiu os três anos do curso básico. Investigador e Fundador do CDT (Cantinho da Teologia). É Acólito, Ministro da Comunhão, participa como representante do grupo de Acólitos de Matosinhos no Concelho Pastoral Paroquial, fez parte do grupo de CPM (Preparação para o matrimonio), foi membro da equipa Pastoral Vocacional, formador do Grupo de Acólitos da Paróquia de Matosinhos e membro da equipa de Liturgia.
“O
Sínodo – tempo para escuta e mudança”
Ilídio, entre as
várias instâncias, o caminho sinodal em curso convida-nos a rever de forma
continuada a relação entre a Igreja e o mundo. Esta última é uma das questões
mais relevantes para si. Sobre este tema, que contribuição pode oferecer a
reflexão teológica?
O
percurso sinodal começou por privilegiar a dinâmica da escuta. Em muitas
realidades foi muito mais cansativo e frustrante do que se imaginava. Uma das
razões, talvez, é que a escuta é uma prática mais fácil de dizer do que de
fazer, com a qual perdemos, e em particular na Igreja Católica, traquejo e
familiaridade. Para quem ensina como se fosse um hábito, por exemplo, é difícil
se colocar na postura de escuta e a meu ver, é um dos grandes problemas e que
não permite a melhor comunicação entre as partes.
Na
maior parte das vezes quando os professores se calam e pedem a alguém para
falar, estão quase sempre em postura de avaliador de um desempenho, e os
interlocutores sabem disso. Como agente formador, sei do enorme esforço que é
preciso para ficar a frente de um adolescente e simplesmente ouvi-lo, pensando
que ele realmente tem algo para me dizer e pronto. É muito mais fácil
posicionar-me numa atitude de quem faz o outro falar, principalmente porque
quer entrar no seu pensamento e assim explicar de forma mais compreensível, ou
mostrando-me educado e cortês deixando o outro falar, mas mais do que qualquer
outra coisa para reduzir o limiar da suspeita e depois estimulá-lo a me ouvir,
ou pior ainda deixá-lo desabafar e depois falar sem que o que eu tinha a dizer
tenha sido minimamente tocado pelo tempo da escuta.
Nas
últimas décadas, temo que a Igreja Católica Portuguesa tenha se preocupado
tanto em ensinar - e vamos deixar de lado se por necessidade ou por excesso de
zelo, se com mais ou menos sucesso - que às vezes nem se lembra como se faz a
escuta. E não (ou não só) em sentido moral, mas exatamente como postura,
hábito, atitude.
Os teólogos fazem parte da Igreja e participam dos mesmos esforços. Muitos de nós também estão mais preocupados, por exemplo, com a exatidão das respostas ou em transformar cada interlocução numa pergunta, que eles simplesmente não conseguem escutar. No entanto, uma das funções da teologia é também a de "escutar com atenção" (Gaudium et spes 44).
A Teologia
Ilídio, nos últimos tempos, há várias publicações tentando
apresentar a teologia a um público que vai além dos estudiosos da disciplina.
Mas, numa cultura Hiper técnica e setorial como a nossa, para que ainda serve a
teologia?
-
Depende do que se entende por "teologia", é claro. De certo ponto de
vista, quem está em alguma relação de fé não pode deixar de fazer teologia.
Escolher uma fórmula ao invés de outra para rezar uma oração, adotar um
raciocínio ao invés de outro para justificar uma escolha de vida de fé, ler um
texto sagrado de acordo com uma forma de interpretação ou outra (mas eu poderia
citar outros 10 exemplos), são todas atividades teológicas.
Considero
que todo o crente é também um teólogo, queira ou não, da mesma forma que um pai
também é um pedagogo, queira ou não, porque cada gesto e cada palavra que ele dirige
para os seus filhos terá uma consequência em vez de outra. Assim como nenhum
pai deve ter um diploma em pedagogia, da mesma forma nenhum batizado deve ter
um diploma em teologia, sendo que pode ser útil reter uma certa sabedoria ou
conhecimento, ou pelo mesmo que exista algum “especialista”.
Insistindo
na analogia, como existem diferentes escolas pedagógicas, também existem
diferentes escolas teológicas. Neste momento penso que precisaríamos não de
"teólogos" generalistas, mas de estudiosos da cristologia (uma das
disciplinas em que se divide o estudo académico) treinados para desmascarar o
gnosticismo e o pelagianismo contra os quais o Papa Francisco frequentemente se
manifesta e que tanto dano semeiam.
Precisaríamos
também de especialistas em lógica sacramental para desbloquear uma paralisia
que já se tornou patológica entre teoria e práticas da crença.
Seriam
necessários ainda mais biblistas e exegetas que soubessem vencer a tentação de
reduzir as Escrituras ao seu ensinamento moral ou à sua filologia autorreferencial.
Precisaríamos
de apologistas combativos que combatam qualquer tentativa de reduzir a religião
cristã a um conjunto de valores civis, que possam ser explorados pelos poderes
políticos e económicos.
Seriam
necessários divulgadores imaginativos que não criem mais um movimento ou grupo
identitário em torno de seu carisma pessoal, mas que ofereçam a todos os
sujeitos do povo de Deus a possibilidade de usar as palavras da nossa tradição
para atravessarmos juntos estes nossos tempos, entremeados de medos e de
graças.
Acima
de tudo, mas é um juízo muito pessoal, seriam necessários canonistas para levar
de volta o direito canónico e a jurisprudência ao seu papel de cuidadores da
tensão em direção à justiça, e não apenas justificativas para a impossibilidade
de uma redenção, se não a preços quase insustentáveis para a vida.
O Magistério
O Papa Francisco já nos habituou a um estilo do qual
dificilmente se voltará atrás. O seu pontificado até agora caracterizou-se por
uma proposta magistral que leva em consideração o passar do tempo, a cultura,
os contextos e as situações. Poderíamos, nesse sentido, falar de um magistério
em contínua evolução?
- Seria
difícil para mim dizer o contrário, ou seja, que o magistério não evolui, no
sentido de que nunca muda. Mas não é uma novidade de Francisco. Vou tentar
explicar-me melhor. Na Igreja Católica chamamos de "magistério" a
tarefa da Igreja de instruir e supervisionar as teorias e práticas da
fidelidade a Cristo.
Hoje
os detentores do mais alto magistério são os bispos, com algumas prerrogativas
próprias do bispo de Roma. Claro que há ensinamentos magistrais que chegaram a
uma forma definitiva (por exemplo "Jesus Cristo é verdadeiro Deus e
verdadeiro homem", ou "Maria é a mãe de Deus"), mas nem por isso
o esforço para compreender cada vez melhor essas verdades, ou usá-los como
raízes de um estilo de vida, está concluído de uma vez por todas! Ainda há
muito a ser entendido e sobre o qual, portanto, também, no caso, instruir e
supervisionar.
Além
disso, há questões que podem ser reformadas periodicamente (São Pedro, por
exemplo, entendeu melhor depois de seu encontro com o centurião romano,
Cornélio, o que significava "anunciar a todos as gentes" e também
depois daquele episódio mudou a prática de circuncisão). Depois, há elementos
que é indispensável atualizar, retornando obviamente cada vez à fonte da
verdade que é Jesus Cristo.
Finalmente,
há também "discussões doutrinais, morais e pastorais" que podem e
devem ser resolvidas sem o magistério (cf. Amoris laetitia 3). Num capítulo de “Teologia do bar”, o Teólogo
Italiano Marco Ronconi, tenta colocar isso de uma forma um pouco mais divertida:
“o magistério não visa encontrar uma formulação para cada problema que nos
proteja de todo erro possível, de forma que devemos esperar os seus
pronunciamentos eternos e imutáveis para todas as coisas”. Identifico-me muito
com isto.
Por
outro lado, o fato do seu ensinamento nem sempre ser eterno e imutável não nos
autoriza a considerá-lo irrelevante. O magistério, na sua própria existência,
lembra que entre idolatrar a lei - iludindo-se de que na vida há sempre um
procedimento que garante a inocência diante de um juiz disposto a nos condenar
- e nomear-se catalogadores individuais do bem e do mal – elegendo o próprio eu
como Deus - está a liberdade do Evangelho, a cujo serviço também está o
magistério.
No
entanto, se quiserem uma explicação melhor, recomendo um belo texto magistral:
a constituição Dei Verbum no n. 10. Ou dois livros fascinantes de teologia: O
desenvolvimento do dogma católico, publicado por Maurizio Flick e Zoltan
Alszeghy em 1967; O Magistério na Igreja Católica, publicado por Francis
Sullivan em 1983.
A Sagrada Escritura
Há investigações
sociológicas que mostram um aumento considerável do distanciamento, e
ignorância, de muitos Portugueses no que diz respeito à educação religiosa e ao
conhecimento da Bíblia. No entanto, o texto bíblico é fundamental para
iniciar-se num caminho de fé, para conhecer o cristianismo e para compreender
uma parte fundamental da cultura europeia e mundial. Mas, na sua opinião, o que
a Bíblia pode comunicar à cultura atual?
Peço desculpa se respondo com uma brincadeira: mas Bíblia sozinha não comunica nada. O que
faz a diferença é quem a lê e como. Não vou repetir aqui as motivações - ainda
que sacrossantas - com que crentes e não crentes, intelectuais e artistas,
periodicamente invocam uma difusão mais ampla do texto bíblico. Eu concordo
plenamente com eles. O problema não é a teoria, mas as práticas de leitura.
Por
um lado, a Bíblia é assustadora porque é usada como "Palavra de Deus"
até mesmo por fundamentalistas, ou atemoriza pelo tamanho e pela dificuldade
objetiva de muitos dos seus textos. Por outro lado, estão muito na moda aqueles
que a usam como reservatório de respostas para os seus problemas, ou manual de
autorrealização individual.
A
Bíblia não é algo que precisa de quatro diplomas antes de se poder usá-la, mas
também não é algo que existe em primeiro lugar para mim, como se eu fosse o
centro do universo e Deus não tivesse mais nada que fazer a não ser dizer-me
coisas, fazendo-me sentir um idiota quando não as entendo, já que as escondeu
em textos de entendimento não tão imediatos.
Quem
quiser entender a intenção de quem a escreveu - diz a Dei Verbum 12 -
"deve pesquisar com atenção" e, pelo menos segundo a própria Bíblia,
o pior é a "explicação privada" (2Pd 1,20-21); não é por acaso que
uma das práticas mais antigas da Bíblia é a lectio divina. Ora, esta “com
atenção” pressupõe uma ou mais competências (e aqui entram todos os múltiplos
estudos ou conhecimentos práticos deveriam ser colocados mais em circulação),
mas assim se retorna à primeira das perguntas desta nossa conversa.
Para
terminar, o caminho começa desta forma: primeiro junto com Jesus. E, depois,
junto com os irmãos e as irmãs, os fiéis discípulos de Jesus! Digo isso com
muita força e convicção: caminhamos juntos, com Jesus, com Jesus Senhor que
está vivo, pelas estradas do mundo! Aqui está a chave de cada sínodo, de cada
caminhar juntos! O primado vai para a escuta do Senhor, da sua Palavra, do que
o Espírito Santo diz às Igrejas e aos fiéis. Do contrário, até podemos caminhar
com os outros, mas não saberemos para onde ir, que estrada seguir, porque só
ele é o caminho.
E
se nós, cristãos, somos "aqueles do caminho", somos aqueles que têm
Jesus como caminho! "Eu sou o caminho, a verdade, a vida!" (Jo 14,
6).
10/03/2023
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