Domingo VI da Páscoa - Ano C

Este domingo antecede o domingo da Ascensão de Jesus ao céu. O Evangelho vai-nos recordar que Jesus prometeu não deixar sós os seus discípulos depois da sua partida para o Pai e garante-lhes a Sua presença. Cumpre essa promessa transmitindo-lhes um dom muito especial: A vinda Espírito Santo que O tornará presente e os acompanhará sempre.
O Espírito Santo é o guia dos cristãos
O Espírito Santo é para os cristãos o Dom do Pai e do Filho, como escutamos na leitura do Evangelho. É o Espírito Santo que ensina e recorda tudo o que Jesus ensinou: «O Espírito vos ensinará todas as coisas e recordará tudo o que Eu vos disse».
Inúmeras situações se colocaram à Igreja nascente e também se colocam à Igreja de hoje. Como lidar com os novos movimentos religiosos? Como gerir as situações de divórcio, de homossexualidade, do aborto, da eutanásia? São estas e muitas outras situações fracturantes que têm implicação com os ensinamentos de Jesus.
Jesus garante que os seus discípulos encontrarão sempre uma resposta às suas perguntas, uma resposta que esteja de harmonia com os Seus ensinamentos. É preciso escutar a sua palavra e abrir o coração à inspiração do Espírito. Depois, é preciso ter coragem para seguir as suas indicações, porque, talvez Ele exija mudanças de caminho tão imprevistas como fundamentais. O Espírito apenas ensinará o Evangelho de Jesus.
O Espírito também tem como missão recordar. No Evangelho, há muitas palavras de Jesus que facilmente são esquecidas e postas de lado. O Espírito no-las recordará se estivermos atentos aos seus apelos e actuarmos na nossa vida com os mesmos sentimentos de Jesus.
Para sabermos se de facto Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) habita em nós, basta interrogarmo-nos, com toda a sinceridade, sobre o que dizem de nós no trabalho, em casa, na escola, na comunidade, nas diversões: «Quem Me ama guardará a Minha palavra e o Meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada», disse Jesus. Quer dizer que depois de escutarmos a palavra do Evangelho, recebemos a vida de Deus, somos sua morada e levados a realizar as mesmas obras de Jesus. Será que as realizamos?
Teremos a coragem de pôr de lado questiúnculas e desejo de mandar em vez de servir; de externamente sermos pessoas muito religiosas, que proferem bonitas palavras sobre o amor, a paz, o respeito pelos outros, mas depois quando ninguém vê, ofendemos o cônjuge, importunamos os filhos, não ajudamos ninguém e exigimos que nos sirvam?
Saibamos colocar o amor à frente da força, a humildade à frente da soberba, o serviço à frente do prestígio.
A força do Espírito actua em nós quando nos abrimos totalmente ao seu sopro libertador, como aconteceu com os discípulos reunidos em Jerusalém.
A acção do Espírito nos discípulos reunidos em Jerusalém
A Igreja primitiva em período de crescimento, mas radicada no ambiente judaico e pagão, enfrenta o primeiro grande conflito, como escutamos na primeira leitura. Os Apóstolos, conscientes da presença viva do Dom que Jesus deixou à sua Igreja, sob a inspiração do Espírito Santo e de comum acordo, escolhem mensageiros e enviam-nos, a fim de porem termo à situação e apaziguarem os ânimos mais exaltados com a diversidade de comportamento das diferentes comunidades.
A mensagem desta leitura é importante para nós. Alerta-nos para a tentação de impormos aos outros as nossas tradições e a nossa maneira de praticar a religiosidade, sem as distinguirmos do essencial da mensagem de Jesus.
Por exemplo, nós devemos rezar, mas o Evangelho não nos diz nada como o devemos fazer. Se de pé, de joelhos, braços abertos ou caídos, olhando para cima ou fitando o chão. Isso depende da cultura de cada povo. O importante é pôr de lado tudo aquilo que é contrário ao Evangelho, para seguirmos serenamente a nossa peregrinação neste mundo a caminho do nosso encontro definitivo com Deus.
A nossa peregrinação neste mundo
O livro do Apocalipse, do qual lemos o trecho da segunda leitura, foi redigido com este sentido e precisamente para infundir coragem nos cristãos em dificuldades e desanimados por causa das perseguições. O autor apresenta-lhes, e a nós hoje, o que acontecerá no fim dos tempos. Compara o povo de Deus a uma esplêndida cidade, Jerusalém, aberta para o mundo numa verdadeira universalidade de acolhimento a todos os homens, abatendo todas as barreiras que os separam e rejeitando tudo o que divide, discrimina e marginaliza.
O homem não estará sujeito a ritos, cerimónias ou práticas religiosas, encontrará a Deus face a face. Todo o mal, sofrimento, escuridão serão eliminados.
Todo o trecho é um chamamento apelativo ao provisório da nossa vida. Não temos aqui «morada permanente», por isso recorda-nos que somos peregrinos rumando à casa do Pai, como estrangeiros longe da sua morada definitiva.
Já caímos na conta desta realidade? O que teremos de modificar na nossa vida para sermos conformes às exigências do Evangelho? Pensemos nisto.

Fernando Ilídio in Ékklesia®

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