Domingo V da Páscoa - Ano C


Momento de reflexão 

            Nos evangelhos sinópticos (Mt, Mc, Lc) Jesus fala do Filho do Homem quando revela que a sua missão o levará ao sofrimento e ao despojamento. Na literatura apocalíptica judaica, o Filho do Homem é um personagem celeste que se manifestará no fim dos tempos (ver Dn 7,13-14). No evangelho de João, o termo «Filho do Homem» é utilizado nos textos em que se afirma que Jesus pertence a uma condição superior à humana, mesmo quando se fala da cruz. A primeira vez que João adopta este termo é no capítulo I (Jo 1,51), no episódio de Natanael, onde Jesus afirma: «Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do Homem». A última vez é no versículo que estamos a examinar com o retomar do tema da glorificação (Jo 12,32), apresentada aqui como já realizada.
            Outro elemento evocativo desta frase é a utilização dum estilo altamente lírico: cinco vezes é repetido o verbo glorificar,  três vezes a palavra nele. O verbo glorificar tem valor quer para o passado (Jesus levou a cumprimento a sua missão) quer para o futuro próximo (a sua Páscoa de morte e ressurreição) e definitivo (a sua glória escatológica).
            O Filho do homem, na perspectiva do evangelista João, começa a ser glorificado com o início da sua paixão que começa «agora» e que tende para o Calvário. Na realidade ele é exaltado sobre a cruz como a serpente de bronze no poste (3,14ss). A partir deste trono Jesus manifesta em plenitude a sua divindade (8,28) e atrai todos a si (12,32). Com tal glorificação o Filho do Homem é revestido daquela glória divina que possuía antes da existência do cosmos (17,5).
            Portanto, o Filho do Homem foi glorificado. A glorificação de Cristo é posta em relação directa com a morte, considerada como já acontecida, mas não é certamente Judas a causa de tal glorificação. Conforme a teologia joanina, o autor é Deus. Isto é indicado pelo uso do passivo divino: foi glorificado, subentendendo Deus como sujeito, isto é, Deus glorificou-o.
            Glorificando o Filho do Homem, Deus revelou a sua própria glória, sendo, por sua vez, glorificado. Esta revelação realiza-se através da ressurreição de Jesus, a sua exaltação, a sua subida para junto do Pai. Mas graças à sua relação com o Pai, o Filho estava já na glória. Com a ressurreição ele adquire uma outra glória: a glória de permitir que, através dele, todos os crentes participem na própria vida de Deus. Jesus, elevado da terra, atrairá a si todos os homens (12,32). Deste modo se realiza a reunião na unidade, o objectivo de Deus no envio e na obra confiada ao seu Filho único. O próprio Deus se glorifica no Filho do Homem revelando, através dele, que é Amor.
            A partir do v. 33 há uma mudança de cena: Jesus dirige-se ao seus discípulos como um patriarca que, na altura da morte, reúne os descendentes para lhes entregar o seu testamento, e usa um termo afectuoso: filhinhos. Anunciando  a sua partida, Jesus cria uma situação nova. Ele não estará mais com os seus como esteve até agora. Eles são chamados a continuar a sua amizade com Ele através duma fé profunda.  Esta fé está em relação directa com o amor fraterno, o mandamento do Amor.
            Este mandamento evoca imediatamente a ideia de Aliança; já não a aliança realizada através de Moisés, mas a nova e definitiva Aliança levada a cumprimento por Jesus. Eis porque o mandamento é apresentado como «novo» (em grego kainos, que indica uma mudança qualitativa). A palavra «mandamento», para o quarto evangelho, significa a palavra que revela o amor de Deus Pai; por isso é apenas um.
            «Como eu vos amei…». Como entender este «como»? Deverão os discípulos imitar o comportamento do seu Mestre? Isto seria redutor, tornaria Jesus um personagem do passado, do qual se herda algo a aplicar, de modo que a acção dos discípulos perpetue no tempo a de Jesus. Ao contrário, é possível uma interpretação mais profunda. O «como» não tem o sentido de semelhança, mas de origem. O sentido seria: «Com o amor com que vos amei, amai-vos uns aos outros». O amor do Filho pelos seus discípulos gera o seu movimento de amor: é o seu amor, o amor de Jesus que passa neles quando amam os irmãos e são por eles amados. É o amor com o qual Jesus ama cada homem que torna possível a fraternidade e empenha neste sentido cada comunidade cristã. Um amor sempre novo, sempre gratuito e profundo, como a aliança que Deus revela amando a humanidade e o mundo.
            O amor recíproco dos discípulos manifestará a todos, também num ambiente não crente, a sua pertença a Cristo, através do qual cada pessoa poderá passar da morte à vida. O amor que deve viver a comunidade cristã torna-se assim o rosto do Ressuscitado que vive na sua Igreja (1Jo 4,12), é a virtude essencial do cristão que vive na espera do regresso do seu Senhor.

Fernando Ilídio in Ékklesia ®

Comentários